A eleição de domingo é o culminar de um processo de transição que começou há quatro anos, depois que Doumbouya depôs o presidente Alpha Condé. O líder da junta militar reprimiu a principal oposição e a dissidência, segundo críticos, deixando-o sem oposição significativa entre os outros oito candidatos na disputa.
Apesar dos ricos recursos minerais da Guiné — incluindo o fato de ser o maior exportador mundial de bauxita, usada na fabricação de alumínio — mais da metade de seus 15 milhões de habitantes enfrenta níveis recordes de pobreza e insegurança alimentar, segundo o Programa Mundial de Alimentos.
“Esta votação é a esperança dos jovens, especialmente para nós, desempregados”, disse Idrissa Camara, um jovem de 18 anos residente em Conacri, que afirmou estar desempregado desde que se formou na universidade há cinco anos. “Sou obrigado a fazer bicos para sobreviver. Espero que esta votação melhore o padrão de vida e a qualidade de vida na Guiné”, acrescentou.
A eleição está sendo realizada sob uma nova constituição que revogou a proibição de líderes militares concorrerem a cargos públicos e estendeu o mandato presidencial de cinco para sete anos. Essa constituição foi aprovada por ampla maioria em um
referendo realizado em setembro, apesar de os partidos de oposição terem pedido aos eleitores que a boicotassem.
A votação é a mais recente desse tipo em países africanos que têm visto um aumento de golpes de Estado nos últimos anos. Pelo menos 10 países do jovem continente já presenciaram a tomada do poder pela força, após militares acusarem líderes eleitos de não garantirem boa governança e segurança aos cidadãos.
“Esta eleição abrirá uma nova página na história da Guiné e marcará o retorno do país à liga das nações”, disse o analista político guineense Aboubacar Sidiki Diakité. “Doumbouya é, sem dúvida, o favorito nesta eleição presidencial, porque os principais partidos políticos da oposição foram marginalizados e a Direção-Geral de Eleições, órgão responsável pela supervisão do processo eleitoral, está sob o controle do governo”, acrescentou.
Além de uma oposição enfraquecida, ativistas e grupos de direitos humanos afirmam que, desde o golpe, a Guiné tem presenciado o silenciamento de líderes da sociedade civil, o sequestro de críticos e a censura à imprensa. Mais de 50 partidos políticos foram dissolvidos no ano passado, numa medida que as autoridades alegaram ser para “limpar o tabuleiro político”, apesar das críticas generalizadas.
Havia forte esquema de segurança em Conacri e outras partes da Guiné, com quase 12.000 policiais entre as forças de segurança mobilizadas e postos de controle instalados ao longo das principais estradas. As autoridades haviam declarado no sábado que as forças de segurança “neutralizaram” um grupo armado com “intenções subversivas que ameaçavam a segurança nacional” após disparos terem sido ouvidos no bairro de Sonfonia, em Conacri.
Em todos os locais de votação, longas filas de eleitores, em sua maioria jovens, aguardavam para votar, enquanto policiais monitoravam de perto o processo.
Um total de nove candidatos estão disputando a eleição, e o adversário mais próximo de Doumbouya é o pouco conhecido Yero Baldé, do partido Frente Democrática da Guiné, que foi ministro da Educação durante o governo de Condé.
Dois candidatos da oposição, o ex-primeiro-ministro Lansana Kouyaté e o ex-ministro do governo Ousmane Kaba, foram excluídos por questões técnicas, enquanto os líderes da oposição de longa data Cellou Dalein Diallo e Sidya Touré foram forçados ao exílio.
Enquanto Baldé baseou sua campanha em promessas de reformas na governança, esforços anticorrupção e crescimento econômico, Doumbouya construiu a sua em torno de grandes projetos de infraestrutura e reformas lançadas desde que assumiu o poder há quatro anos.
O projeto mais importante da junta militar tem sido o projeto de minério de ferro de Simandou, um megaprojeto de mineração com 75% de participação chinesa, localizado no maior depósito de minério de ferro do mundo, que iniciou a produção no mês passado após décadas de atrasos.
As autoridades afirmam que um plano nacional de desenvolvimento vinculado ao projeto Simandou visa criar dezenas de milhares de empregos e diversificar a economia por meio de investimentos em agricultura, educação, transporte, tecnologia e saúde.
“Em quatro anos, ele (Doumbouya) conectou a juventude guineense às tecnologias de informação e comunicação”, disse Mamadama Touré, um estudante do ensino médio vestindo uma camiseta com a imagem de Doumbouya na capital Conacri, ao citar os programas de treinamento em habilidades digitais implementados pelas autoridades.
Cerca de 6,7 milhões de eleitores registrados devem votar em aproximadamente 24.000 seções eleitorais em todo o país, com os resultados previstos para dentro de 48 horas. Haverá um segundo turno caso nenhum candidato obtenha a maioria dos votos.
Em Conacri, o estudante Issatou Bah, de 22 anos, disse que ainda está indeciso sobre se vai votar nas eleições.
“Esta é a terceira vez que voto na Guiné, na esperança de que as coisas mudem. Mas nada mudou”, disse Bah, acrescentando que espera que a eleição melhore “este país que tem tudo, mas luta para decolar”.
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