A reabertura parcial dos bancos, após semanas fechados, não resolveu o problema principal: a falta aguda de dinheiro em espécie. Por isso, a população enfrenta filas longas e limites de saque muito baixos, insuficientes para as necessidades básicas.
Reabertura dos bancos traz alívio superficial
GAZA – A reabertura dos bancos na Faixa de Gaza, após quase um mês fechados, trouxe um alívio apenas superficial para uma população à beira do colapso financeiro. Entretanto, a crise de caixa — ou seja, a severa falta de dinheiro físico — continua e paralisa a economia local e a vida de milhões de palestinos.
Diariamente, filas quilométricas se formam em frente às agências bancárias. Muitas pessoas ficam horas sob o sol, tentando sacar pequenas quantias. Enquanto isso, os bancos operam com capacidade mínima e impõem limites de saque baixos. Esses valores, que variam entre US$ 50 e US$ 100 por pessoa, não cobrem as despesas básicas de uma família por uma semana, especialmente diante da inflação alta.
A raiz do problema: bloqueio financeiro crônico
O fechamento dos bancos foi inicialmente uma medida de segurança diante da intensificação dos conflitos. No entanto, especialistas afirmam que a crise é estrutural e já existia antes do fechamento recente.
De fato, o problema central é um bloqueio financeiro crônico causado pelo conflito e pelo bloqueio imposto à região. A entrada de moeda física, especialmente os shekels israelenses, é severamente restrita. Além disso, com a economia destruída e sem exportações significativas, pouco dinheiro novo entra em circulação. Assim, o dinheiro existente vai se esgotando.
“Reabrir os bancos sem resolver o fluxo de caixa é como abrir a torneira de um tanque vazio”, analisa Omar Shakir, economista palestino. “Além disso, não há moeda nova chegando em quantidade suficiente. Os bancos apenas redistribuem o dinheiro limitado que já circulava. Em resumo, trata-se de uma crise de liquidez pura.”
Impactos diretos: comércio parado e desespero
A falta de dinheiro físico traz diversos efeitos devastadores para o dia a dia:
- Comércio parado: Muitos comerciantes não aceitam transferências ou cheques, por medo de não conseguir sacar o valor. Portanto, sem dinheiro vivo, as transações simplesmente não acontecem.
- Preços inflacionados: Quem tem algum dinheiro percebe que os preços dos produtos essenciais disparam, tornando-os inacessíveis para a maioria.
- Ajuda humanitária comprometida: Organizações de ajuda enfrentam dificuldades para sacar fundos e pagar funcionários ou comprar suprimentos.
- Crise na saúde: Hospitais e farmácias encontram obstáculos para adquirir medicamentos e equipamentos, o que agrava ainda mais a já precária situação sanitária.
Ahmed Abu Rass, pai de família em Gaza City, conta: “Depois de cinco horas na fila, consegui sacar 200 shekels (cerca de US$ 55). Contudo, essa quantia mal compra leite e pão para meus filhos por alguns dias. Além disso, não poderei sacar mais nas próximas semanas. Assim, estamos vivendo de empréstimos e ajuda de parentes, mas todos estão na mesma situação.”
Perspectivas futuras: uma solução distante
Infelizmente, não há uma solução fácil à vista. A crise de caixa só será resolvida com um acordo político complexo que permita a entrada regular e substancial de moeda em Gaza. Enquanto as causas políticas e econômicas do bloqueio não forem abordadas, a população continuará presa nesta armadilha financeira.
Portanto, a reabertura dos bancos é um gesto vazio sem o recurso mais básico de uma economia: o dinheiro vivo.
Por fim, a comunidade internacional alerta que, sem uma solução urgente, a crise humanitária na Faixa de Gaza — já considerada catastrófica — pode atingir níveis irreversíveis.