A tesoura, o sonho e o bairro: a história de quem fez da barbearia um projecto de vida – Gibson Hebo

Fora da barbearia, ele define-se como um homem simples: trabalhador, amigo dos seus amigos e profundamente ligado à família. Dentro dela, transforma-se no anfitrião de um espaço que vai muito além dos cortes de cabelo.

“Sempre fui apaixonado pelas barbearias americanas, pela forma como os barbeiros cortam e interagem com os clientes”, conta o microempreendedor que decidiu trazer para o seu bairro esse mesmo espírito.

O início não foi planeado ao detalhe. No primeiro dia de funcionamento, abriu as portas com uma estratégia incomum: ofereceu cortes gratuitos aos moradores da zona. Não se lembra do primeiro cliente, mas recorda a emoção de ver a cadeira ocupada e de sentir que o sonho começava a ganhar forma. Nunca teve um mentor directo; a inspiração veio das imagens e referências que consumia sobre barbearias modernas e acolhedoras.

A decisão de abrir o próprio negócio nasceu do desejo antigo de empreender. Depois de pesquisar actividades rentáveis, apostou na barbearia. Começou com cerca de 50 mil kwanzas e foi adquirindo os equipamentos aos poucos. “O mais difícil de conseguir foi o vidro fumado e as grades”, recorda.

Como qualquer pequeno negócio, há dias duros. Para ele, a maior prova é quando não aparecem clientes, mas prefere não chamar isso de dificuldade. O que o mantém de pé é a vontade de ser persistente, inovar e oferecer sempre um bom trabalho. Acredita que os clientes valorizam sobretudo a pontualidade e a forma como são tratados.

Nem tudo foram certezas. No princípio pensou em desistir, com medo de que o projecto não resultasse. Um dos momentos mais marcantes aconteceu quando a mãe de um cliente pediu para fazer uma oração pelo sucesso da barbearia. “Aquilo tocou-me e deu-me força para continuar”, diz.

Hoje reconhece que o negócio mudou a sua vida. Através dele consegue cumprir responsabilidades que antes eram difíceis e sente que também transformou o bairro. O espaço transmite paz e segurança, e os clientes são recebidos como se estivessem em casa, muitas vezes com um doce como gesto de boas-vindas.

Para quem sonha empreender, deixa um conselho directo: “É preciso confiar quando se investe e parar de pensar que o lucro vem logo no princípio. Não ouças os ‘ouvi dizer’, apenas começa e sê fiel ao teu negócio.” Se tivesse um milhão de kwanzas para investir, não hesitaria: apostaria novamente numa barbearia.

Entre tesouras, conversas e histórias, este microempreendedor prova que um pequeno negócio pode ser também um lugar de afecto, identidade e transformação social, exactamente o tipo de fibra que sustenta as nossas comunidades.

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