Quem o defende é Amadeu Cassinda, jornalista de formação e profissional de relações públicas, que há quase uma década actua na linha da frente da comunicação institucional em Angola.
Para Amadeu, a profissão vai muito além de produzir comunicados ou gerir redes sociais. “As reacções emocionais que sentimos quando ouvimos nomes como BAI, Apple ou Nike não surgem por acaso. São resultado de um trabalho intencional de comunicação integrada, feito por profissionais comprometidos”, explica.
Do jornalismo à estratégia institucional
A sua ligação com a área começou em 2015, quando deixou a função de agente de viagens para coordenar o gabinete de marketing e comunicação de uma empresa do sector petrolífero. O jornalismo foi a porta de entrada. “Foi nele que aprendi o poder das narrativas, o valor da credibilidade e a responsabilidade de informar. Levei esses princípios para a comunicação institucional”, recorda.
Essa transição, segundo o profissional, não representou um abandono, mas uma evolução natural. A comunicação corporativa ofereceu-lhe um campo mais amplo para influenciar decisões, construir reputações e aproximar instituições da sociedade.
Empresas não vendem produtos, vendem significado
Um dos maiores equívocos do mercado, na sua opinião, é acreditar que as pessoas compram apenas serviços. “Elas aderem a causas, propósito e valores. A comunicação estratégica transforma esses activos intangíveis em percepção pública.”
Daí a diferença entre comunicar para empresas e para marcas pessoais. Enquanto a primeira protege a reputação de uma entidade colectiva, a segunda exige autenticidade e proximidade humana. “As pessoas conectam-se com histórias, não com estruturas.”
Desafios do contexto angolano
Gerir a imagem de instituições em Angola ainda enfrenta obstáculos estruturais. Falta de orçamento, pouco envolvimento das lideranças e ausência de visão partilhada são entraves recorrentes.
“Muitas organizações só valorizam a comunicação em momentos de crise. Sem investimento contínuo, tudo se resume a improvisos”, alerta. Para Amadeu, a reputação constrói-se com coerência entre discurso e prática, clareza de propósito e consistência na entrega.
Redes sociais e o fim do monólogo
A revolução digital alterou profundamente as relações públicas. O público deixou de ser receptor passivo para se tornar co-autor das narrativas. “A comunicação passou a ser multidireccional. O controlo da mensagem é hoje partilhado”, observa.
Isso exige prontidão e sensibilidade. Crises explodem em minutos, e a resposta precisa ser estratégica, não emocional. A experiência vivida num grande projecto habitacional, em que um portal de candidaturas colapsou por excesso de procura, ensinou-lhe a importância do trabalho em equipa e da transparência com a imprensa.
O futuro pertence a quem se prepara
Apesar das dificuldades, Amadeu vê um horizonte promissor. As organizações começam a reconhecer que reputação é capital. “O comunicador institucional será cada vez mais um arquitecto de confiança.”
Defende também maior valorização das agências angolanas. “Temos talento, conhecimento do contexto e capacidade técnica. Fortalecer o mercado nacional é fortalecer a nossa soberania narrativa.”
Conselho à nova geração
Aos jovens que sonham com a área, deixa uma mensagem directa: “Entrem com paixão e sentido de missão. Comunicar é compreender pessoas e consequências. A técnica abre portas, mas é a consistência que constrói autoridade.”
Para ele, a comunicação continua a ser o território onde se moldam percepções e se define o futuro das instituições. E em Angola, esse futuro, acredita, deve ser escrito com voz própria. Tudo é Possivel.